Como saber se meu filho é hiperativo

22/02/2013 § Deixe um comentário

No último dia 4 de fevereiro, o Dr. Alexandre Antonio Marques Coelho foi o convidado do Programa TPM, em que foi entrevistado por Clláudia Fleury, fornecendo esclarecimentos sobre as características da hiperatividade na infância. Foram abordadas as características dos tipos do Transtorno Déficit de Atenção – Hiperatividade, as dificuldades do seu diagnóstico, a relação com outros transtornos mentais, como ansiedade e depressão e transtorno bipolar, o curso da doença e suas implicações na idade adulta, bem como as possíveis abordagens terapêuticas. Assista ao vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=CqUgBFDis0s

O humor, a distimia e Walter

25/05/2012 § Deixe um comentário

 

Walter, personagem do ventríloquo Jeff Dunham, nos faz rir com o seu mau-humor

Nesse espaço impreciso entre o que é estético e aquilo que realmente é uma doença mental se encontram algumas doenças do humor mais crônicas, como a distimia e a ciclotimia, e Walter.

Walter é um personagem de Jeff Dunham, um ventríloquo, que se caracteriza pelo seu mau-humor. Idoso, Walter é frustrado com o seu casamento, reclama da sua mulher, reclama de todos os lugares que visita, reclama até das pessoas rirem daquilo que fala. Quando questionado sobre já ter procurado aconselhamento matrimonial, responde: “agora têm duas pessoas que me acham um imbecil, e eu pago as duas”. Sempre encontra o pior viés possível para se abordar a questão, e faz as pessoas rirem.

Walter nos propõe um questionamento: se é normal uma pessoa ser tão insatisfeita com tudo. Pode ser que não. Chamamos de distimia a doença causada pelo mau-humor crônico e persistente, a ponto de causar incômodo significativo para o indivíduo. Os tratamentos psicológicos podem ajudar muito essas pessoas.

Walter, ainda, nos leva a conhecer um aspecto que vai além deste primeiro. A distimia é uma doença do humor, mas no que consiste o humor? Humor, afeto, ânimo, sentimento, empatia. Que coisas são essas, como funcionam? Humor, por exemplo, significa líquido corporal; trata-se de uma expressão de origem grega datada da época de Hipócrates, quando se acreditava que algumas doenças seriam consequências de mudanças na composição desses líquidos, os humores. A melancolia, hoje chamada de depressão, seria uma consequência do refluxo da bile negra para o sangue. Talvez o melhor aspecto dessa definição seja a conexão que estabelece do humor com o funcionamento orgânico do corpo.

Obviamente, resulta ainda de um juízo de valor o fato de um humor ser bom ou mau, inclusive permitindo uma mudança de sentido ainda mais carregada de coerção para bem-humorado ou mal-humorado. O entendimento da relação entre o humor e os juízos de valor pode complicar-se mais se levarmos em consideração que, muitas vezes, o mau – real ou potencial, concreto ou fantasiado – possa ser fonte de prazer.

Além desta conexão que propõe entre o funcionamento do nosso corpo e os nossos sentimentos, o humor também pode ser objeto da interação entre as pessoas. Esse humor construído, que se vale de estereótipos e de metáforas, estabelece conexão entre diferentes grupos de significados e sentimentos, construindo sentidos novos que não são possíveis ao indivíduo isolado. Quando uma pessoa nos desperta ansiedade por estar deprimida, isso pode nos ajudar a insistir para que busque ajuda. Por outro lado, podemos manter sadicamente uma pessoa doente, porque a doença dela é interessante, porque tira a nossa atenção dos nossos próprios problemas ou porque nos faz rir.

Tratar um transtorno do humor não é apenas matar quimicamente um sentimento desconfortável persistente, mas propor a construção de novos sentidos. Sentido, como algo que foi sentido, que passou pela experiência do sentimento. Sentido, como algo que nos dá uma nova direção. Sentido, como algo que modifica a nossa percepção da realidade, como uma nova visão. Sentido, como algo que tenha nexo, que faça sentido. Walter com o seu mau-humor nos faz rir, qual o sentido disso?

* Imagem disponível em http://www.usatoday.com/life/television/news/2009-12-29-jeff-dunham_N.htm

Assista Walter e Jeff Dunham no espetáculo Arguing with myself em http://www.youtube.com/watch?v=3fiKjikoRaI

Assista Walter e Jeff Dunham no espetáculo Spark of insanity em http://www.youtube.com/watch?NR=1&feature=fvwp&v=QkxBwA4uzAk

Fobias: características gerais

13/12/2011 § 1 comentário

Dr. Alexandre Coelho e Dr. Alceu Correia Filho são convidados pelo TV Camara Entrevista para uma conversa sobre Fobias

 
Na última semana, participaram do programa TV Camara Entrevista, apresentado por Tatiana Rockenbach,  Dr. Alexandre Antonio Marques Coelho e Dr. Alceu Gomes Correia Filho, que forneceram orientações gerais sobre as fobias. Ao longo do programa, de uma maneira informal, foram explicados o que são as fobias, suas manifestações, suas causas e os tratamentos. Dr. Alceu Filho, psiquiatra da infância e adolescência, teceu considerações sobre as fobias mais comuns na infância, seu tratamento, suas peculiaridades, como os pais devem reagir às suas manifestações. Dr. Alexandre, psiquiatra e psicoterapeuta, comentou sobre a aprendizagem das fobias e seu tratamento. 
 
Assista a entrevista na íntegra em http://vimeo.com/33421332.

Como lidar com a dúvida a respeito dos sentimentos por duas pessoas?

05/12/2011 § Deixe um comentário

Várias pessoas buscam psicoterapias com o objetivo de tomar decisões a respeito de seus relacionamentos amorosos. Algumas pessoas buscam individualmente; outras, trazem a relação inteira para uma reavaliação por meio de uma terapia de casal.

As relações são regidas por contratos, que podem ser explícitos, com suas regras discutidas e negociadas, ou implícitos, com suas regras advindas do senso comum. Por exemplo, um casal pode negociar um relacionamento com alguma abertura, ou pode casar na igreja “até que a morte os separe, e o que Deus une o homem não pode desunir”. Normalmente, esses contratos seriam firmados em pé de igualdade: são duas pessoas que se estão propondo dividir algo entre si, mesmo que se trate apenas do compartilhamento de momentos juntos, e que negociam essa troca de uma maneira igual, em cujo rompimento poderiam ter algum sofrimento que possivelmente seria indistinto entre ambos. Nem sempre as coisas são assim: muitas vezes, essa troca se dá de uma maneira desigual, o sofrimento de um é supostamente maior do que o do outro no rompimento da relação, o que podemos chamar de dependência de um em relação ao outro.

Na maioria das vezes, a dificuldade maior não é a dúvida a respeito dos sentimentos pela pessoa com quem nos relacionamos, mas o medo da revelação de que os sentimentos pela pessoa não são tão intensos, de que existem dúvidas. Como a outra pessoa vai reagir a essa revelação? E quando nessa revelação estiver envolvida uma proposta de abertura do relacionamento, de um recuo? Tornar um rolo em namoro, um namoro em noivado, um noivado em casamento, normalmente são vividos pelo companheiro como validação da relação, gratificação; o inverso, como invalidação, fracasso, aversão. Isso nos desperta medo: como iremos fazer tal proposta ao companheiro, sem que ele sinta raiva de nós, sem que o companheiro possa querer o rompimento total da relação, ou sem frustrá-lo? E se existem crianças que dependem da relação? O problema maior, no meu entendimento, é que a alternativa a essa conversa na maioria das vezes é uma mentira: dizer que as coisas estão bem quando não estão, dizer que amamos quando não amamos.

Ninguém é obrigado a ter sentimentos por ninguém. Ao longo do tempo, nossos sentimentos mudam. Conhecemos a pessoa e coisas que imaginávamos ser não eram; outras coisas à medida que conhecemos a pessoa com quem nos relacionamos nos surpreendem e encantam. Precisamos ter coragem para lidar com nossos sentimentos e com os sentimentos dos outros de maneira responsável.

* Imagem disponível em http://lh4.ggpht.com/_s4eOzqwDXqQ/S2Bc8f1elAI/AAAAAAAACGg/IzXACa99fac/CASAL%20EM%20BEIJO%20SENSUAL.jpg

No lugar da violência, a mentira

01/07/2011 § Deixe um comentário

Há algum tempo, entraram em discussão dois projetos de lei: a lei antibullying e a lei antipalmada. O primeiro, que na verdade já foi sancionado pela ex-governadora Yeda Crusius, é a lei 13434/10, e não deixa de ser resposta ao assassinato do estudante Matheus Davít, que era vítima de bullying por outros dois estudantes. O segundo, que ainda segue em tramitação, é o projeto de lei 2564/03, de autoria da atual ministra, naquele momento deputada, Maria do Rosário, que tenta estabelecer o direito da criança a não ser submetida a qualquer tipo de punição corporal. Muitos poderiam sugerir que os meninos cometeram o homicídio porque não apanhavam em casa, outros poderiam dizer o exato oposto, que eram submetidos a violência em casa e apenas reproduziam na escola esse tipo de relação. Uns vão exprimir as experiências de exposição à violência com seus efeitos benéficos; outros talvez não se sintam encorajados a expressar o ressentimento de uma relação familiar em que se impõe o poder através da força.

 

A Lei AntiBullying, sancionada pela ex-governadora Yeda Crusius, define bullying como agressão entre pares que ocorre dentro do ambiente da escola.

 

Na lei antibullying, o bullying é definido como agressão entre pares na escola. Bullying não é isso! Bullying é um fenômeno de grupo, que antigamente era denominado a partir da vítima, o bode-expiatório. O Bullying não ocorre exclusivamente na escola; pelo contrário, pode acometer qualquer grupo humano em que exista uma diferença de poder e um compromisso com a negação do pensamento, motivo pelo qual também não pode ser definido como uma agressão entre pares. Como intervenções, a lei propõe camapanhas educativas e círculos restaurativos. O problema é que a educação, da maneira como se encontra, está comprometida com uma aprendizagem que não inclui obrigatoriamente o desenvolvimento pelos alunos da capacidade de pensar. Os alunos não querem aprender o que a escola de hoje tem ensinado. E mais, se o aluno não quer aprender, tentando obrigá-lo desrespeitamos a liberdade de uma pessoa decidir se quer conhecer ou ignorar determinada coisa. Isso nos leva a perguntar: por que os alunos não querem aprender? Dessa forma, o enfrentamento do bullying através de camapanhas educativas é uma mentira, porque a educação ignora o por quê de os alunos não quererem aprender, cuja resposta poderia ser outra pergunta: Por que eu iria querer saber tanto quanto você se eu não quero ocupar esse mesmo lugar de desvalor que foi onde você conseguiu chegar com essa aprendizagem? A educação não quer aprender que não leva a nenhum lugar senão o desvalorizado serviço e a frustração, porque o conhecimento é um produto vil que pode se comprar a preço de banana, isso quando não é fornecido de graça pelo estado ou pela internet. O aluno, que enxerga a realidade, enxerga que pode chegar a um lugar muito melhor através da violência, com o quê se conquista liberdade, respeito, admiração.

A situação das famílias, e da violência doméstica, não é diferente da situação das escolas. A violência doméstica reflete um compromisso que as famílias assumem de negar o pensamento a respeito daquilo que se está tentando impor através da força. Nos últimos anos, o modelo tradicional de família precisou ruir; a mulher não está mais em casa à disposição do marido e dos filhos, o que exigiu que o marido assumisse tarefas domésticas, e exigiu mudanças das crianças também, tudo isso gerando muita culpa nos pais, em especial por não estarem tão à disposição dos filhos quanto seus pais estiveram à sua. Aquilo em que o projeto de lei falha é na tentativa de impedir uma distinção entre o que é violência e o que não é, colocando tudo como punição corporal. Muitas vezes a palmada faz parte de um jogo entre pais e filhos, e o filho sabe que se fizer tal coisa levará uma palmada, e faz apenas para conferir o desfecho, e pais e filhos educam-se e têm prazer com isso, como uma jogada mais dura em uma partida de futebol. Isso não é violência! Por outro lado, existem crianças que sofrem violência sem receber sequer uma palmada, quando são abandonadas à própria sorte, ou quando são convencidas pela família de que não têm nenhum valor. A violência doméstica é de muito mais difícil abordagem do que a lei propõe, e proibir as palmadas nesse contexto é uma mentira.

Depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a sociedade esforça-se para banir a violência e enfrentar diferenças, mas precisa colocar alguma coisa no lugar da força, só não tem capacidade de pensar que coisa é essa, e aprender não é pensar. A pessoa pode aprender a pensar como pode aprender a agir sem pensar. Já o pensamento se desenvolve para satisfazer através da fantasia e da criatividade desejos que não podem ser satisfeitos através da ação. Algumas vezes, pensar dói. Pensar nos exige que conheçamos aquilo que nos amedronta: algumas vezes descobrimos que não era nada; algumas vezes exige que tomemos atitude; outras, vemos que o que nos amedronta existe mesmo e não há outra coisa a fazer senão chorar. O que tomou o lugar da violência em vez do pensamento, trabalhoso e dolorido, foi a mentira. A iminência da dor precipita a mentira, que causa um falso alívio: a sensação de que se pôde evitar a dor sem pensar. Por que fazer de fato as coisas, se isso dá trabalho, se podemos mentir que vamos fazer, e isso não dá trabalho nenhum?

* Charge disponível em http://4.bp.blogspot.com/_28GIIZQA114/S38njUGFEoI/AAAAAAAACZc/ISvty1tuTnc/s400/Yeda+economica.jpg

 Lei 13474/10 – Lei Antibullying

 Projeto de Lei 2654/03 – Lei Antipalmada

 

 

Suicídio: informação básica

01/07/2011 § Deixe um comentário

Alice (Deborah Secco) protagonista do episódio "A Suicida da Lapa", da série As Cariocas, planeja seu suicídio

O episódio apresentado pela Rede Globo, “A suicida da Lapa”, da série As Cariocas, nos remete a revisitar um tema que é sempre atual: a questão do suicídio. O desconhecimento da sociedade a respeito daquilo que se tem descoberto a respeito do suicídio e daquelas situações que tornam o seu estudo trabalhoso é uma dificuldade a mais na abordagem médica deste tema. Em 2007, desenvolvemos no Hospital Psiquiátrico São Pedro um projeto que visava aumentar o conhecimento dos familiares dos pacientes que tinham risco de suicídio, e nos deparamos com o quanto a desinformação expõe os pacientes a riscos.

Como todos os eventos que envolvem a morte, o fenômeno do suicídio é imerso em preconceito. O paciente muitas vezes tem vergonha de dizer que está pensando em se matar; o familiar acredita que o paciente está querendo chamar atenção, porque se quisesse mesmo não falaria a respeito e apenas faria, e o médico, muitas vezes, não pergunta sobre a ideação suicida porque teme que assim fazendo possa dar a idéia de se matar ao paciente. Os próprios meios de comunicação não veiculam a ocorrência do suicídio pelo mesmo motivo. Essa rede de desinformação acaba muitas vezes a dificultar o enfrentamento desse evento que é presente em todas as sociedades.

Antes de mais nada, o suicídio é um evento médico. Alguns consideram essa escolha justificável em algumas situações, como nos pacientes terminais que sentem dores insuportáveis, mas ocorre que em cerca de 90% dos casos de suicídio se identifica que o paciente está vivenciando um transtorno psiquiátrico no momento do suicídio (que inclusive pode aumentar a percepção da dor pelo paciente). O paciente que fala em se matar pode vir a fazê-lo. Em algumas situações, a família pode conduzir o paciente compulsoriamente para avaliação médica, se considerar que o paciente apresente um risco de fazer algo contra si mesmo que o justifique. Existem ações e medicações que comprovadamente diminuem o risco de suicídio, como a observação constínua, como a restrição aos meios letais, como a abstinência do álcool, como o lítio e os antidepressivos nos transtornos de humor e como a clozapina nos transtornos psicóticos.

O suicídio é um fenômeno, um dos poucos dentro da psiquiatria, que está relacionado diretamente com a quantidade de uma substância no cérebro, a serotonina. Pacientes que cometem suicídio têm um risco aumentado de terem quantidades diminuidas de serotonina no cérebro. Pacientes com histórico familiar de suicídio apresentam risco aumentado de também cometerem suicídio, e vários genes tem sido implicados como possivelmente associados ao suicídio. O consumo de álcool aumenta em dez vezes a chance de um paciente com transtorno de humor vir a cometer suicídio, o que seria mais um motivo para restringir o seu consumo, além de outros, como o fato de facilitar o consumo de outras substâncias e de estar diretamente relacionado com as mortes do trânsito e com uma maior predisposição à violência.

A informação pode auxiliar que enfrentemos o suicídio de uma maneira mais eficaz. As pessoas considerarem a possibilidade de que o pensamento suicida seja apenas mais um entre outros pensamentos adoecidos por uma doença psiquiátrica pode levá-las a pedir ajuda e obter tratamento, com isso modificando significativamente tanto a sua percepção quanto os eventos da própria vida. A família ter conhecimento a respeito do suicídio pode auxiliá-la na tomada de decisão de insistir para que o familiar procure ajuda, de acompanhar o paciente continuamente, ou até, em casos extremos, de conduzir o paciente para tratamento sem o consentimento deste. O conhecimento pela sociedade de que o álcool está implicado também no evento do suicídio pode, ainda, qualificar o debate acerca dos riscos e benfícios de sua disponibilidade de consumo. 

* A Suicida da Lapa pode ser assistido em http://www.youtube.com/watch?v=T6s_8JHmrRc

* Imagem disponível em http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSJjQ9Zf7folaL7SHRAS_niy-UYmKrsJDAIyXzuHxa5jpOmEtwgyg

 

Uma discussão sobre a descriminalização da maconha

09/06/2011 § Deixe um comentário

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos principais entrevistados do documentário e posiciona-se favoravelmente à descriminalização da maconha

Há alguns meses, eu recebi um e-mail que dizia o seguinte: “Veja o que os portugueses têm comentado a respeito dos brasileiros: 1) parece que lá, no Brasil, político que tenha ficha suja não pode disputar eleição, a menos que se eleja; 2) parece que lá no Brasil o sujeito pode utilizar qualquer documento para votar, menos o título de eleitor.” Convido o leitor a se perguntar se não se trata do mesmo tipo de lógica quando concordamos que a proibição do consumo de drogas estimula o seu consumo.

Esse é um dos argumentos que propõem aqueles que defendem a descriminalização do comércio de drogas como forma de enfrentamento do tráfico de drogas, o que foi tema da reportagem apresentada recentemente no Fantástico, a respeito do documentário “Quebrando o tabu” em que o ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, é um dos principais entrevistados, reportagem que antecedeu uma enquete em que 57% dos telespectadores se posicionaram favoráveis a descriminalização do comércio da maconha.

A proposta de uma discussão ampla esbarra na incapacidade que os próprios usuários apresentam de pensar a respeito do assunto, que é uma característica da doença. O usuário de canabis, como os usuários de outras substâncias, na maioria das vezes não se reconhece doente, e precisa do outro para essa sinalização. “Eu só bebo socialmente”, “quando eu quiser eu paro”. A sociedade facilmente identifica a distorção da percepção do usuário de álcool quando fala dessa forma. Por que a sociedade resiste em aceitar que é doente uma pessoa que diz que “maconha não é droga, que maconha não faz mal”? Como a sociedade não percebe o quão dependente é uma pessoa que confrontada com a ilegalidade do hábito prefere tentar mudar a lei a deixar de consumir a substância?

Nessa discussão, a responsabilidade pelo aumento da criminalidade é retirada da maconha e é atribuida à criminalização do consumo. Ocorre que outras drogas que são descriminalizadas estão implicadas no aumento da violência. É o caso do álcool, por exemplo, substância cujo consumo foi proibido em algumas cidades, resultando numa diminuição considerável na quantidade de crimes violentos nas suas redondezas, substância cuja restrição de consumo por motoristas incorre numa diminuição na quantidade de acidentes e mortes no trânsito.

Até então não tínhamos uma pessoa pública do vulto do ex-presidente se posicionando favoravelmente em relação ao tema. Porque o discurso era de que algo precisava ser feito, e apenas observávamos que nada se fazia. E não conseguíamos entender: como não se consegue enfrentar o tráfico de drogas? Por que o poder público insiste em não fazer a sua parte?

Aliando-se à ambivalência da sociedade, o governo não faz o seu papel de indisponibilizar o acesso à substância, fica nesse faz-não-faz, e como retribuição perpetua-se governo. A população, alienada em drogas, aprova o presidente em cujo governo se deu o maior escândalo de corrupção da história, aceita o presidente dizer em sua defesa que não sabia de nada. A população, alienada, não se interessa pelo enriquecimento repentino do ministro, que já havia sido afastado no governo anterior por estar envolvido em outro escândalo. Amedrontada pelos traficantes, a população fica enclausurada em casa, recebendo pelos meios de comunicação qualquer informação como sendo o retrato da realidade. Enquanto a população se aliena, o poder segue compartilhado por esses mesmos poucos, que mais fazem beneficiar a si mesmos do que qualquer outra coisa.

Outros comentários sobre o assunto em:

 http://acertodecontas.blog.br/atualidades/descriminalizacao-das-drogas-contra-ou-a-favor/

http://www.mood.com.br/3a01/maconha.asp

http://www.gilmacisantos.com.br/noticias/517-nao-a-descriminalizacao-da-maconha

http://forum.portaldovt.com.br/forum/index.php?showtopic=92232

* Imagem disponível em http://www.cineweb.com.br/img/uploads/filmes/quebrando_tabu/quebrando_tabu_interna.jpg’