A paz esteja com você

19/12/2013 § 1 comentário

Parece que ainda não conseguimos compreender o que seria realmente a paz. Muitas vezes confundimos paz com ordem, e acreditamos que possamos produzir paz por coação. Outras vezes procuramos a paz como o efeito de alguma substância sobre o cérebro. Ampla campanha pareia paz a cannabis, substância que de fato induz um estado de passividade crônico, condição conhecida como Síndrome Amotivacional.

Duas aves na beira do mar. Playa Jose Inacio, Uruguay, 2013. Foto do autor.

Duas aves na beira do mar. Playa Jose Ignacio, Uruguay, 2013. Foto de Deborah Gomes.

Paz se relaciona com perdão. Vem cá, dá a mão pro amiguinho, pronto, agora vocês estão de bem, vão brincar. Quando crianças é tão mais fácil começar a brincar de novo. Crescemos, enchemo-nos de orgulho e teimosia, e temos de sustentar por quanto tempo mais os nossos beiços. É que, doutor, lá dentro (o sentimento) não mudou, então como é que eu vou poder perdoar? Eu vou estar mentindo. Se o sentimento já tivesse mudado, não precisaria perdoar. Perdoar envolve desenvolvermos a capacidade de nos desapegar dos nossos sentimentos aversivos e nos tornarmos capazes de experimentar novos sentimentos. Muitas vezes é difícil, mas podemos aprender.

A paz se relaciona com os nossos sentimentos, mas paz não é um sentimento. Paz é diferente da sensação de relaxamento a que uma substância pode nos induzir. Paz é mais do que conseguirmos ser mais tolerantes às nossas frustrações, o que também pode ser induzido farmacologicamente. E paz também envolve nos relacionarmos com sentimentos aversivos, como na situação do perdão.

Nesses confusos mapas das nossas relações, passividade e paciência podem ser apenas duas maneiras diferentes de ver a mesma coisa. Calar-se ao ser insultado pode ser considerada uma atitude passiva em relação a empenhar-se em uma discussão.

Paz implica aceitar que o nosso tempo está submetido ao tempo das coisas. Ciência, que não sabemos tudo, e que existe tanto a se conhecer. Paciência envolve articular paz e ciência na construção de uma perspectiva, mesmo incompleta, daquilo que está acontecendo, e avaliar e escolher a melhor maneira de agir em resposta à realidade, sabendo que podemos errar nessa escolha muitas vezes. Envolve podermos estar sendo submetidos a situações adversas, mas não encarnarmos a adversidade, através do perdão.

Paciência, paz e ciência, algo tão grande, que pode estar no limite da nossa capacidade de compreensão. E tão pequeno, que precisamos conhecer bem os nossos limites para que possamos desenvolver.

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§ Uma Resposta para A paz esteja com você

  • Margarida Kroeff disse:

    Amado, grata pelo texto. Cultivar e exercitar a ciência da paz é tarefa que exige acima de tudo vontade de aprender a ser melhor, estar aberto para si e para o outro. gratidão por este texto tão revelador. Minha reverência …

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