Ainda se faz eletrochoque? Essa brutalidade?

07/09/2013 § 2 Comentários

Paloma (Paolla Oliveira) é submetida a eletrochoque em Amor à Vida

Paloma (Paolla Oliveira) é submetida a eletrochoque em Amor à Vida

Nos últimos dias, a personagem Paloma (Paolla Oliveira) de Amor à Vida foi internada desnecessariamente em uma clínica psiquiátrica e submetida à força a ¨eletrochoque¨. As cenas, assustadoras, claramente desconcertam-nos. E nos levam a questionar a validade dos tratamentos psiquiátricos. Ainda se faz esse tipo de brutalidade?

Antes de mais nada, é importante dizer: Não! A psiquiatria já aprendeu tratar-se de uma brutalidade agir dessa forma, e os pacientes não são mais tratados assim.

Alguns aspectos que vão além desse do eletrochoque, entretanto, precisam ser tomados com muito cuidado. A personagem da novela é realmente vítima de uma conspiração. E a psiquiatra interpreta tudo como delírio persecutório. Ou seja, no entendimento da psiquiatra, o que a paciente está dizendo são pensamentos irrealistas produtos do adoecimento mental.

Uma parcela significativa dos pacientes graves em psiquiatria avalia a sua situação de maneira equivocada, delirante, e em função disso acaba por expor-se a riscos (como viajar com drogas ou entrar em confronto físico com um detento?). Ajuda nessa avaliação o psiquiatra coletar a história da família, mas às vezes a família também não sabe ao certo o que está acontecendo ou não há família. É nessas condições que o médico precisa tomar a decisão de se conduzir contrariando a vontade do paciente ou não, para protegê-lo. Em não protegendo-o, pode estar se omitindo em relação ao risco do paciente, e ser responsabilizado por isso; em protegendo-o, pode estar se conduzindo de maneira abusiva.

Nas últimas décadas, após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aconteceram avanços legais que possibilitaram que essa forma de se conduzir do psiquiatra em casos graves, pelo menos, não se desse de forma totalitária, desconsiderando por completo a vontade do paciente. Nesse sentido, construiram-se leis que protegem o paciente de uma decisão equivocada do psiquiatra, e existe uma nova instância que participa desse processo de decisão para proteger o paciente de uma atitude abusiva, e até mesmo das situações de risco, o Ministério Público. Conforme as leis atuais, para manter um paciente internado contra a sua vontade por mais de 72 horas é necessário informar o Ministério Público da situação e justificar. Da mesma forma, quando nos deparamos com uma situação de risco devido a doença mental, podemos acionar o Ministério Público, que irá avaliar a situação e implementar medidas cabíveis (assim se espera).

O Ministério Público não é infalível, até porque reflete o entendimento da sociedade sobre a questão, decantada em leis. No caso da dependência química, por exemplo, o Ministério Público está sendo acionado na maioria das vezes no sentido contrário. Ordens judiciais submetem pacientes à avaliação psiquiátrica contra a vontade para interná-los, e o psiquiatra conforme sua avaliação toma as condutas que julgar adequadas. Claro, informando o Ministério Público da sua decisão.

Nem sempre foi assim. E é importante que pacientes, familiares, psiquiatras e a sociedade conheçam a história da psiquiatria, até para que não surjam novidades inéditas salvadoras como a parceria entre o poder público e a igreja para salvar o paciente da loucura (ou da dependência química).

Paciente psiquiátrico submetido à extração de todos os dentes como tratamento para não morder mais, procedimento do século XVIII.

Paciente psiquiátrico submetido à extração de todos os dentes como tratamento para não morder mais, procedimento do século XVIII.

Em http://www.youtube.com/watch?v=3rnNC2hDqvY, temos um documentário dos mais radicais sobre a história da psiquiatria.  No final da idade média, as feiras eram locais perigosos, circulava muito dinheiro, e a solução foi protegê-las com muralhas. Circunscrever o poder. E lá dentro ficava (presa?) a elite e a igreja. Tomam força as ordens religiosas, pessoas que enclausuravam-se para aprisionar-se na fé. Os que não se submetiam às leis eram presos em fortalezas. Entre esses estabelecimentos, surgem os leprosários, os manicômios, e até (pasme-se) as escolas.

É contra o aprisionamento dos doentes mentais que surge a psiquiatria. O marco fundamental da psiquiatria foi Philippe Pinel  romper as correntes dos doentes mentais do Hospital-Sanatório de Paris. Naquele momento, os pacientes além de trancafiados eram exibidos publicamente em troca de dinheiro. Estamos falando na sociedade que deu à luz a Revolução Francesa. Ou seja, da eclosão de novos valores, entre eles a liberdade em oposição à caridade, o conhecimento em oposição à fé, a educação em oposição à salvação.

Philippe Pinel visita os alienados na Sapetrière, Hospital-Sanatório de Paris

Philippe Pinel visita os alienados na Sapetrière, Hospital-Sanatório de Paris

A partir do desenvolvimento de um tratado médico-filosófico fundamentado no acompanhamento dos alienados, passa a ser articulado o proposto Tratamento Moral. Entre as questões que emergem neste momento encontra-se a questão da doença mental como inimputabilidade penal (o alienado não precisa ser castigado, mas tratado). Como tudo na história, algumas questões tiveram novos nomes e sentidos revistos, mas na prática mudaram pouco, como a disciplina em lugar da penitência.

Enfim, chegamos à era da eletricidade. Às vezes, não nos damos conta, mas aquelas sociedades até então viviam à luz das velas. Como nos desconcertamos quando falta luz por alguns minutos. Eles viviam sem luz. Pensavam muito conforme o que se falava e pouco conforme o que se lia. Só alguns poucos sabiam ler. E esses poucos muitas vezes tinham isso como um conhecimento desconectado da sua vida. Como é para nós hoje o estudo dos elétrons em nuvens. No final do século XIX, com o desenvolvimento da eletricidade logo se teve a idéia de utilizá-la como pesquisa e para fins terapêuticos (e políticos e militares). Antes, o que se sabia do corpo sabia-se apenas por anatomia patológica (dissecar cadáveres). Se fizeram descobertas fascinantes com a eletroencefalografia (avaliar o funcionamento elétrico do cérebro), microscopia óptica (antes eles não tinham nem microscópio).

Foi no início do século XX que a eletroconvulsoterapia ganhou popularidade. Naquele momento não existiam medicações psiquiátricas; os médicos realizavam sangrias. E por algumas décadas se realizou o procedimento como aconteceu na novela. Nessa mesma época, judeus foram submetidos a neurocirurgias experimentais sem anestesia pelos nazistas, e assim se descobriu que o cérebro (acreditem) não dói. Inclusive, Walter Jackson Freeman, ao longo dessas décadas, um médico americano que utilizava uma técnica de destruir a parte da frente do cérebro com algo desenvolvido a partir de um picador de gelo e agulhas, a chamada lobotomia transorbitária, percorria o país com seu lobotomóvel, fazendo uma campanha para que esse procedimento fosse mais realizado, inclusive em crianças. E nesse mesmo tempo, Freud empenhou-se em desenvolver uma psicologia científica, construindo-se em torno da hipótese de que crianças apaixonam-se sexualmente pelos seus pais e querem matá-los e sofrem com isto.

Excessos à parte, a descoberta da eletroconvulsoterapia (ECT) é uma revolução na psiquiatria, pois possibilitou que milhares de pacientes tivessem alta dos hospitais. Se pensarmos historicamente, na idade média os pacientes passavam a vida inteira aprisionados; na época de Pinel, em que aceitou-se a possibilidade de que os alienados melhorassem, os pacientes ficavam grande parte da vida internados, mas tinham a possibilidade de estar entre os ¨normais¨ entre uma internação e outra. A ECT, aliada ao desenvolvimento dos psicofármacos, possibilitou uma virada para que essas internações pudessem durar entre algumas semanas e um ou dois meses, e então a pessoa poderia tentar ficar novamente com a família. Os manicômios transformaram-se em grandes asilos, moradias de pacientes que não estavam agudamente doentes.

O nosso organismo funciona eletricamente. Não é estranha a idéia de que normalmente nos neurônios existe eletricidade. Quando temos um ataque cardíaco por fibrilação, por exemplo, o coração está funcionando eletricamente, só que o modo como está funcionando não consegue fazer com que impulsione o movimento do sangue. Quando se usa o desfibrilador, nada mais se faz do que dar um choque para que o coração volte a funcionar da maneira certa para movimentar o sangue. Com a eletroconvulsoterapia é mais ou menos assim. Quando estamos deprimidos, o nosso cérebro está todo funcionando, mas o funcionamento não é eficaz para que as nossas emoções estejam à nossa disposição para reagir adequadamente ao que está acontecendo. A ECT provoca uma convulsão, que possibilita que o cérebro possa voltar a funcionar eletricamente como devia.

A ECT, quando indicada adequadamente, é inclusive mais segura do que os tratamentos farmacológicos. Gestantes, por exemplo, algumas vezes não podem fazer uso de medicações pelo risco ao feto. Como é um tratamento local, a ECT representa um risco menor. Pacientes idosos, que fazem uso de inúmeras medicações, podem ter limitadas possibilidades de uso de psicofármacos em função das interações medicamentosas. Esses pacientes também se beneficiam da ECT.

Claro, diferentemente da desfibrilação, na ECT hoje em dia pode-se fazer uma avaliação adequada antes da sua realização, para indicá-la apenas nos casos em que o benefício de sua realização supere os riscos e o desconforto, inclusive em comparação com as alternativas que se têm. Em relação ao desconforto, hoje em dia, as ECTs são realizadas sob anestesia. O paciente não se debate, a convulsão é acompanhada unicamente no eletroencefalograma; é iniciada com o estímulo elétrico, que o paciente não sente porque está dormindo, dura alguns segundos, e é interrompida com medicamentos. Os pacientes normalmente saem satisfeitos da escolha pelo tratamento, em função de a melhora poder ser percebida mais rapidamente do que com o uso das medicações, que demoram semanas para fazer efeito.

Poderia-se dizer, inclusive, que hoje os pacientes sofrem mais por ser privados do acesso a este recurso terapêutico, por preconceito. Por as pessoas, como na novela, divulgarem eletroconvulsoterapia como o mesmo que eletrochoque, uma forma de tortura. Em http://www.youtube.com/watch?v=OKuuJH66r84 temos uma reprotagem sobre a atualidade da eletroconvulsoterapia.

* Imagens disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=lYQ1zxFM274http://www.youtube.com/watch?v=3rnNC2hDqvY e pablo.deassis.net.br

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§ 2 Respostas para Ainda se faz eletrochoque? Essa brutalidade?

  • Laura Ferraz disse:

    Olá, assisti ao vídeo recomendado. Você tem certeza de que é um tanto radical? Realmente, até agora (2013) as pessoas sofrem preconceito por serem portadoras de algum transtorno mental, mesmo que leve. Acredito que antigamente, era muito pior. Ainda pela influência severa que as religiões exerciam sobre a ciência. Gostei muito do blog. Parabéns pela iniciativa.

    • Oi, Laura.
      Fico muito satisfeito que tenhas gostado do blog.
      A questão do preconceito na doença mental é extremamente importante para a psiquiatria. Acredito que se relacione com a dificuldade que temos em lidar com igualdade e diferença sem estabelecermos juízo de valor, questão relacionada aos nossos traços narcísicos. Respeitar o outro na sua diferença, sem ser indiferente ao seu sofrimento, e sem impor autoritariamente uma normalidade irreal. A sociedade já experimentou muitas estratégias ¨artificiais¨ para resolver o problema do preconceito na doença mental, sem abordá-lo genuinamente levando em consideração as questões narcísicas. Já negamos a existência de doença mental, o que resultou em projetos políticos de desassistência. Já mudamos o nome de doenças, como a psicose maníaco-depressiva que se tornou transtorno bipolar, como se o preconceito estivesse no nome e não na condição. Enfim, se propuseram estratégias de combate ao preconceito na doença mental a partir da correção de uma pequena parte. Na proposta do combate, entretanto, existe a necessidade de demarcação de lados, externos um ao outro. Um certo, um errado. Um novo, um ultrapassado. E se a questão for o combate em si e não a escolha do inimigo?
      Muito obrigado pela participação.

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