O que leva uma pessoa a ter compulsão alimentar?

21/05/2013 § Deixe um comentário

Palavra de origem grega que significa ¨fome de boi¨, a bulimia é uma doença cuja característica principal consiste na compulsão alimentar. Muitas vezes, as pessoas pensam que bulimia é apenas quando a pessoa vomita, isso é mais ou menos como dizer que a pessoa só é alcoólatra quando bebe todos os dias. Tem muitas pessoas que têm compulsão alimentar e não utilizam qualquer medida compensatória, e engordam; outras fazem uso de medidas compensatórias, jejuns, vômitos, laxantes, exercícios físicos extenuantes (isso mesmo, também é considerado uma medida compensatória) e mesmo com tudo isso se sentem fracassadas no controle do peso. O que causa essa condição?

A fome é um dos sentimentos mais fundamentais do ser humano, vamos dizer, enquanto bicho. Animais que acumulam reservas energéticas sobrevivem mais quando comparados aos que não acumulam quando expostos a uma seca prolongada ou a um inverno rigoroso. O acúmulo de gordura, entretanto, se deixa o animal mais pesado ou mais lento, se transforma em desvantagem na primavera. Sentir fome quando privado de alimento é adaptativo, nesse sentido grifemos quando privados de alimentos. A compulsão alimentar é uma resposta independente da privação. Ocorre que muitas vezes a pessoa que sente compulsão soma isso com atitudes que causam fome, como alimentação desorganizada, jejuns prolongados, abuso de guloseimas ricas em carboidratos simples, entre outras que criam um ciclo onde se torna quase impossível diferenciar a compulsão da fome. Outro aspecto importante no controle do comportamento da compulsão alimentar é que precisamos ter muitos episódios de compulsão alimentar por muito tempo para que possamos ser punidos pelo engordar, enquanto que sempre que comemos somos gratificados na hora com prazer; o mesmo ocorre com o emagrecer: precisamos tolerar a frustração de modificar a nossa ingesta alimentar por muito tempo para que possamos ser reforçados por uma modificação na balança ou por um emagrecimento perceptível, enquanto o comer nos gratifica na hora; as medidas compensatórias (vomitar, usar purgantes) são tentativas de tornar imediata a gratificação do emagrecimento.

A bulimia é uma resposta feminina. Algumas estimativas apontam que a frequência da condição chega a ser dez vezes maior em mulheres do que em homens. Claro, quando falamos em gênero estamos falando em aspectos muitos que vão além de hormônios, mas temos que pensar em hormônios também. Os hormônios masculinos mandam o corpo utilizar os nutrientes energéticos para criar músculos, e os femininos, gordura. Os hormônios masculinos e femininos são armazenados no tecido adiposo. Curioso é que os hormônios masculinos e femininos são muito parecidos e em grandes quantidades tornam-se menos seletivos pelos seus receptores. Então, se aumentamos a quantidade de tecido gorduroso, aumentamos a quantidade de hormônios, o que pode levar os hormônios masculinos a exercerem efeitos de hormônio feminino e vice-versa. Nas mulheres, ocorre que com o aumento de peso muitas vezes acontece a chamada de síndrome dos ovários policísticos, uma forma de masculinização.

Representação pré-histórica do feminino enquanto fertilidade, a Venus de Willendorf apresenta contornos voluptuosos.

Representação pré-histórica do feminino enquanto fertilidade, a Venus de Willendorf apresenta contornos voluptuosos.

Esse efeito conduz a discussão para a revolução social operada pelas mulheres ao longo do século passado, buscando direitos, e fazendo continuamente uso de hormônios como forma de não engravidar, e tornando-se mais agressivas sexualmente (uma atitude masculina?). Ao mesmo tempo, tem se observado (nos dois sentidos) um grupo de homens que cultiva obsessivamente os músculos, com atitudes que poderíamos comparar com as atitudes da preocupação com o engordar, das mulheres. A sociedade como um todo tem aumentado de peso de maneira indistinta, isso poderia apontar no sentido de uma sexualidade indistinta? Tá, vamos parar por aqui, daqui a pouco vamos envolver homossexualidade nessa discussão, e pode vir a ser crime. De qualquer maneira, atravessa a discussão a questão da forma do corpo como qualificadora da pessoa enquanto objeto de interesse sexual, onde o mais forte e a mais magra seriam mais atraentes de desejo sexual do que o mais fraco ou a mais gorda, o que nos coloca em contato com a nova dialética do feminino: ao mesmo tempo de a mulher não querer ser considerada apenas um objeto sexual e a busca por poder ser esse objeto.

Representação celta do feminino, Sheela-na-Gig abre o ventre para inspirar o temor do contato com o interno do corpo.

Representação celta do feminino, Sheela-na-Gig, que é magra, abre o ventre para inspirar o temor do contato com o interno do corpo.

Essas questões que podem ser observadas dentro da sociedade como um todo também são presentes dentro das famílias, que são o principal alvo de intervenção dentro dos transtornos alimentares. A boca é um espaço de comunicação entre o externo e o interno do corpo. Pode colocar em palavras o que está dentro (os sentimentos). Pode devorar agressivamente o que está fora, transformar o externo em sentimentos, bem como vomitar tudo de que não consegue dar conta. E temos medo de falar sobre a sexualidade incestuosa intrafamiliar. O desejo sexual entre pai e filha, a concorrência entre a filha e a mãe, a emergência do corpo novo da filha dentro da família, o prolongamento interminável da adolescência como uma fuga ao desprendimento do meio familiar, a gestação na adolescência, entre outras tantas vinculações que podem ser compreendidas através de perspectivas que envolvam a sexualidade.

A família atual enfrenta uma grande renegociação de papéis, entre a família do passado, entenda-se a família do passado tanto a família vitoriana assexuada como a família antes da emergência da sexualidade dos filhos, e a família do presente que começa a poder falar e explorar livremente a sexualidade (ainda que dentro de uma perspectiva externa à família; dentro, é incesto, abuso, pedofilia, crime, pecado). Nesse sentido, a ¨greve de fome¨ da anorexia pode tanto ter uma perspectiva de protesto como ser uma estratégia bem-sucedida no pior sentido de matar esse corpo novo que emerge, e a bulimia, a aceitação da culpa familiar pelo insucesso no controle dos próprios sentimentos e do próprio corpo, bem como pelas repercussões do que essa emergência processa na sexualidade intrafamiliar.

Essa renegociação de papéis também é presente dentro do enquadramento psicoterápico. A medicina vitoriana do final do século XIX, que não podia lidar com a emergência de questões de sexualidade entre pacientes e terapeutas, deu à luz o conceito da transferência. Segundo esse entendimento, o paciente transferia para o médico (profissional não emocional, inocente a essa investida) suas fantasias sexuais que haviam sido direcionadas para seus genitores durante o conflito edípico (o menino querer matar o pai para ficar com a mãe). Hoje, entende-se que para que exista tratamento precisa que pacientes e terapeutas estejam presentes emocionalmente. Mesmo com a presença de fantasias sexuais, pacientes e terapeutas precisam estar conscientes da impossibilidade da concretização dessas fantasias como condicionante do enquadramento psicoterápico, só assim o tratamento é possível.

Questão desafiadora dentro da perspectiva social, familiar e individual, trata-se de uma doença e de um sintoma presente em outras doenças mentais que causa muito sofrimento. No tratamento da bulimia, algumas medicações, a principal delas a fluoxetina, podem ser muito úteis. As intervenções psicoterápicas também são importantes, individuais, familiares e de grupo, dentro das perspectivas comportamental-cognitiva, sistêmica, esquizoanalítica, psicanalítica. Os sintomas (pensamentos, sentimentos, comportamentos) podem melhorar bastante com estratégias comportamentais e cognitivas. A família poder colocar em palavras e recriar as interações pode fazer com que o sintoma não se faça mais tão necessário. A pessoa também pode reviver e elaborar na transferência os sentimentos e fantasias inconscientes representadas no sintoma por meio de uma exploração psicodinâmica. Nos transtornos alimentares, já se demonstrou que atividades de grupo são mais eficazes do que individuais dentro da perspectiva comportamental-cognitiva, provavelmente porque os participantes competem entre si no controle do sintoma, o que não significa que não exista espaço para intervenções individuais. As intervenções não precisam ser implementadas todas ao mesmo tempo: é difícil ao paciente submeter-se a um tratamento psicoterápico, quanto mais submeter-se a diversos tratamentos psicoterápicos concorrentes. De qualquer maneira, o enfrentamento da bulimia é um desafio para pacientes e terapeutas, e o sucesso no tratamento da condição tem se tornado cada vez mais possível.

Anúncios

Marcado:, ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento O que leva uma pessoa a ter compulsão alimentar? no Caderno de Terapia.

Meta

%d blogueiros gostam disto: