O humor, a distimia e Walter

25/05/2012 § Deixe um comentário

 

Walter, personagem do ventríloquo Jeff Dunham, nos faz rir com o seu mau-humor

Nesse espaço impreciso entre o que é estético e aquilo que realmente é uma doença mental se encontram algumas doenças do humor mais crônicas, como a distimia e a ciclotimia, e Walter.

Walter é um personagem de Jeff Dunham, um ventríloquo, que se caracteriza pelo seu mau-humor. Idoso, Walter é frustrado com o seu casamento, reclama da sua mulher, reclama de todos os lugares que visita, reclama até das pessoas rirem daquilo que fala. Quando questionado sobre já ter procurado aconselhamento matrimonial, responde: “agora têm duas pessoas que me acham um imbecil, e eu pago as duas”. Sempre encontra o pior viés possível para se abordar a questão, e faz as pessoas rirem.

Walter nos propõe um questionamento: se é normal uma pessoa ser tão insatisfeita com tudo. Pode ser que não. Chamamos de distimia a doença causada pelo mau-humor crônico e persistente, a ponto de causar incômodo significativo para o indivíduo. Os tratamentos psicológicos podem ajudar muito essas pessoas.

Walter, ainda, nos leva a conhecer um aspecto que vai além deste primeiro. A distimia é uma doença do humor, mas no que consiste o humor? Humor, afeto, ânimo, sentimento, empatia. Que coisas são essas, como funcionam? Humor, por exemplo, significa líquido corporal; trata-se de uma expressão de origem grega datada da época de Hipócrates, quando se acreditava que algumas doenças seriam consequências de mudanças na composição desses líquidos, os humores. A melancolia, hoje chamada de depressão, seria uma consequência do refluxo da bile negra para o sangue. Talvez o melhor aspecto dessa definição seja a conexão que estabelece do humor com o funcionamento orgânico do corpo.

Obviamente, resulta ainda de um juízo de valor o fato de um humor ser bom ou mau, inclusive permitindo uma mudança de sentido ainda mais carregada de coerção para bem-humorado ou mal-humorado. O entendimento da relação entre o humor e os juízos de valor pode complicar-se mais se levarmos em consideração que, muitas vezes, o mau – real ou potencial, concreto ou fantasiado – possa ser fonte de prazer.

Além desta conexão que propõe entre o funcionamento do nosso corpo e os nossos sentimentos, o humor também pode ser objeto da interação entre as pessoas. Esse humor construído, que se vale de estereótipos e de metáforas, estabelece conexão entre diferentes grupos de significados e sentimentos, construindo sentidos novos que não são possíveis ao indivíduo isolado. Quando uma pessoa nos desperta ansiedade por estar deprimida, isso pode nos ajudar a insistir para que busque ajuda. Por outro lado, podemos manter sadicamente uma pessoa doente, porque a doença dela é interessante, porque tira a nossa atenção dos nossos próprios problemas ou porque nos faz rir.

Tratar um transtorno do humor não é apenas matar quimicamente um sentimento desconfortável persistente, mas propor a construção de novos sentidos. Sentido, como algo que foi sentido, que passou pela experiência do sentimento. Sentido, como algo que nos dá uma nova direção. Sentido, como algo que modifica a nossa percepção da realidade, como uma nova visão. Sentido, como algo que tenha nexo, que faça sentido. Walter com o seu mau-humor nos faz rir, qual o sentido disso?

* Imagem disponível em http://www.usatoday.com/life/television/news/2009-12-29-jeff-dunham_N.htm

Assista Walter e Jeff Dunham no espetáculo Arguing with myself em http://www.youtube.com/watch?v=3fiKjikoRaI

Assista Walter e Jeff Dunham no espetáculo Spark of insanity em http://www.youtube.com/watch?NR=1&feature=fvwp&v=QkxBwA4uzAk

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