No lugar da violência, a mentira

01/07/2011 § Deixe um comentário

Há algum tempo, entraram em discussão dois projetos de lei: a lei antibullying e a lei antipalmada. O primeiro, que na verdade já foi sancionado pela ex-governadora Yeda Crusius, é a lei 13434/10, e não deixa de ser resposta ao assassinato do estudante Matheus Davít, que era vítima de bullying por outros dois estudantes. O segundo, que ainda segue em tramitação, é o projeto de lei 2564/03, de autoria da atual ministra, naquele momento deputada, Maria do Rosário, que tenta estabelecer o direito da criança a não ser submetida a qualquer tipo de punição corporal. Muitos poderiam sugerir que os meninos cometeram o homicídio porque não apanhavam em casa, outros poderiam dizer o exato oposto, que eram submetidos a violência em casa e apenas reproduziam na escola esse tipo de relação. Uns vão exprimir as experiências de exposição à violência com seus efeitos benéficos; outros talvez não se sintam encorajados a expressar o ressentimento de uma relação familiar em que se impõe o poder através da força.

 

A Lei AntiBullying, sancionada pela ex-governadora Yeda Crusius, define bullying como agressão entre pares que ocorre dentro do ambiente da escola.

 

Na lei antibullying, o bullying é definido como agressão entre pares na escola. Bullying não é isso! Bullying é um fenômeno de grupo, que antigamente era denominado a partir da vítima, o bode-expiatório. O Bullying não ocorre exclusivamente na escola; pelo contrário, pode acometer qualquer grupo humano em que exista uma diferença de poder e um compromisso com a negação do pensamento, motivo pelo qual também não pode ser definido como uma agressão entre pares. Como intervenções, a lei propõe camapanhas educativas e círculos restaurativos. O problema é que a educação, da maneira como se encontra, está comprometida com uma aprendizagem que não inclui obrigatoriamente o desenvolvimento pelos alunos da capacidade de pensar. Os alunos não querem aprender o que a escola de hoje tem ensinado. E mais, se o aluno não quer aprender, tentando obrigá-lo desrespeitamos a liberdade de uma pessoa decidir se quer conhecer ou ignorar determinada coisa. Isso nos leva a perguntar: por que os alunos não querem aprender? Dessa forma, o enfrentamento do bullying através de camapanhas educativas é uma mentira, porque a educação ignora o por quê de os alunos não quererem aprender, cuja resposta poderia ser outra pergunta: Por que eu iria querer saber tanto quanto você se eu não quero ocupar esse mesmo lugar de desvalor que foi onde você conseguiu chegar com essa aprendizagem? A educação não quer aprender que não leva a nenhum lugar senão o desvalorizado serviço e a frustração, porque o conhecimento é um produto vil que pode se comprar a preço de banana, isso quando não é fornecido de graça pelo estado ou pela internet. O aluno, que enxerga a realidade, enxerga que pode chegar a um lugar muito melhor através da violência, com o quê se conquista liberdade, respeito, admiração.

A situação das famílias, e da violência doméstica, não é diferente da situação das escolas. A violência doméstica reflete um compromisso que as famílias assumem de negar o pensamento a respeito daquilo que se está tentando impor através da força. Nos últimos anos, o modelo tradicional de família precisou ruir; a mulher não está mais em casa à disposição do marido e dos filhos, o que exigiu que o marido assumisse tarefas domésticas, e exigiu mudanças das crianças também, tudo isso gerando muita culpa nos pais, em especial por não estarem tão à disposição dos filhos quanto seus pais estiveram à sua. Aquilo em que o projeto de lei falha é na tentativa de impedir uma distinção entre o que é violência e o que não é, colocando tudo como punição corporal. Muitas vezes a palmada faz parte de um jogo entre pais e filhos, e o filho sabe que se fizer tal coisa levará uma palmada, e faz apenas para conferir o desfecho, e pais e filhos educam-se e têm prazer com isso, como uma jogada mais dura em uma partida de futebol. Isso não é violência! Por outro lado, existem crianças que sofrem violência sem receber sequer uma palmada, quando são abandonadas à própria sorte, ou quando são convencidas pela família de que não têm nenhum valor. A violência doméstica é de muito mais difícil abordagem do que a lei propõe, e proibir as palmadas nesse contexto é uma mentira.

Depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a sociedade esforça-se para banir a violência e enfrentar diferenças, mas precisa colocar alguma coisa no lugar da força, só não tem capacidade de pensar que coisa é essa, e aprender não é pensar. A pessoa pode aprender a pensar como pode aprender a agir sem pensar. Já o pensamento se desenvolve para satisfazer através da fantasia e da criatividade desejos que não podem ser satisfeitos através da ação. Algumas vezes, pensar dói. Pensar nos exige que conheçamos aquilo que nos amedronta: algumas vezes descobrimos que não era nada; algumas vezes exige que tomemos atitude; outras, vemos que o que nos amedronta existe mesmo e não há outra coisa a fazer senão chorar. O que tomou o lugar da violência em vez do pensamento, trabalhoso e dolorido, foi a mentira. A iminência da dor precipita a mentira, que causa um falso alívio: a sensação de que se pôde evitar a dor sem pensar. Por que fazer de fato as coisas, se isso dá trabalho, se podemos mentir que vamos fazer, e isso não dá trabalho nenhum?

* Charge disponível em http://4.bp.blogspot.com/_28GIIZQA114/S38njUGFEoI/AAAAAAAACZc/ISvty1tuTnc/s400/Yeda+economica.jpg

 Lei 13474/10 – Lei Antibullying

 Projeto de Lei 2654/03 – Lei Antipalmada

 

 

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