As manifestações populares organizadas por redes sociais e o Big Brother Brasil

07/03/2011 § Deixe um comentário

Manifestações organizadas por redes sociais na Líbia contrárias ao governode Kadafi

Temos observado algo nunca antes visto: uma rede social organizou populações de diversos países, levando em coisa de um mês à queda de diversos regimes políticos, algo da dimensão, pasme-se, do que foi o Império Romano. Ao mesmo tempo, vemos uma nação voltar mais uma vez a vidrar-se num jogo, que nada mais é do que habituar os jogadores ao sentimento de vergonha, e observá-los e julgá-los conforme os seus sentimentos e comportamentos mais privados.

No seu nascimento, após a revolução francesa, os tratamentos psicológicos tinham como pressuposto que os sintomas psicológicos eram decorrência de uma falência da própria sociedade de prover condições ao indívido de aprender valores morais necessários ao convívio social. O chamado tratamento moral, que era dispensado nos sanatórios, por um lado provia aos mendigos que para lá eram conduzidos um ambinte higiênico e alimentação digna; por outro, os doentes eram privados – em alguns casos por toda a vida – de sua liberdade e eram submetidos a um regime de disciplina, com horários e obrigações, que eram administrados por entidades religiosas. Tal tratamento não deixava de ser uma forma de incutir culpa por adoecer naqueles que adoeciam, e despertar o medo de adoecer naqueles que permaneciam com o juízo crítico preservado.

Talvez tenha sido nesse mesmo período que a sociedade tenha aprendido a separar o público do privado, guardando para o primeiro aspectos morais e éticos de grande estima, muitas vezes falsos, e deixando ao escondido aquelas práticas que talvez não sejam tão merecedoras de admiração, como a loucura. Agora, vemos emergir na história algo totalmente diverso: não deve mais existir o privado! E vemos, ao mesmo tempo, acontecer o BBB e a queda de diversos regimes supostamente autoritários organizada por uma rede social.

Quando participamos do BBB, talvez até não tenhamos consciência disso, mas somos convidados a fazer um julgamento: quem deve continuar no jogo? E, semanalmente, um é excluído. O que também o BBB nos ensina é o prazer envolvido nessa prática, de julgar, condenar e excluir, que é própria do ser humano. O que tem ocorrido nas sociedades islâmicas, que estão inflamadas para que seus regimes autoritários entrem em ruína, não deixa de ser o mesmo processo. Quando condenado, parece que o antigo líder construiu sozinho aquela sociedade, e não que nada mais é do que um representante daquilo que a sociedade esperava de um líder. Um processo coletivo, anônimo.

Quem é o responsável pela saída de determinado jogador? E de Kadafi? O que se irá construir depois da destruição, e como fazer para que essa coisa não seja a mesma que a de antes? Vimos, no Brasil, como na França da revolução, um governante autoritário ser reconduzido à autoridade, louvado pelos mesmos que o escurraçaram. Tenho esperança que tal processo leve a algum amadurecimento.



* imagem disponível em http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSh2YbzTA6FObNjaBo-59ro

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