Infidelidade e identidade: é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?

29/01/2011 § 1 comentário

Berilo (Bruno Gagliasso), Agostina (Leandra Leal) e Jéssica (Gabriela Duarte) vivem triângulo amoroso na novela Passione de Sílvio de Abreu

Tivemos observando, na novela Passione, de Sílvio de Abreu, o personagem Berilo (Bruno Gagliasso) viver um triângulo amoroso com Agostina (Leandra Leal) e Jéssica (Gabriela Duarte). De tal maneira é articulada a história – e tal é a interpretação do ator – que parece que o personagem nutre de fato sentimentos por ambas as mulheres. Temos enraizada nas nossas mentes a idéia de que quando existe infidelidade numa relação apenas uma das relações é amorosa e a outra se mantém por algum outro motivo. Não é o que o personagem nos mostra. A pergunta que surge, então, é se é realmente possível amar duas pessoas ao mesmo tempo.

Para cada pessoa amar significa uma coisa, isso se para a mesma pessoa amar seja a mesma coisa em momentos diferentes. Amor é um sentimento que de alguma maneira nos leva a tomar atitudes, como a de buscar nos relacionar com a pessoa amada. Amar também é a atitude de se relacionar com essa pessoa.

O sujeito da ação de amar é ao mesmo tempo a pessoa que ama e a concepção que essa pessoa tem de si mesmo, o que chamamos em psicologia de identidade ou self. A ação de amar e sentir amor de alguma maneira se relaciona com construção de realidade mental – fantasia – e a busca da concretização da fantasia na relação real.

A nossa identidade é aprendida. Aprendemos quem nós somos através da interação com os demais, em especial através da brincadeira e do jogo. Quando brincamos, temos idéia de que aquilo que estamos fazendo na realidade só tem sentido na nossa imaginação, aquilo é uma fantasia, nós não somos aquilo que nos propomos fazer. Quando jogamos, existe uma reciprocidade na aprendizagem daquilo que o outro espera de nós e daquilo que nós esperamos do outro. Há uma aprendizagem não só de si mesmo mas do que é o outro. Ocorre que esse papel nem sempre é aprendido de maneira completa. Existem pessoas que distintamente assumem identidades completamente desconectadas entre si, como nos Transtornos de Identidade Múltipla.

Na maioria das vezes, entretanto, a identidade apresenta descontinuidades parciais, que, inclusive, é o que permite alguma flexibilidade e adaptação a diferentes contextos. Portanto, se é a nossa identidade quem ama, e podemos ter mais de uma identidade, podemos sim amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo. Correto?

Até possivelmente, em parte, se considerarmos esse conceito – vago – que é o amor. Agora, se decompusermos nas diferentes ações envolvidas no ato de amar, talvez a coisa não se mantenha da mesma forma. Poderíamos dizer que amar é algum somatório de desejar, seduzir, respeitar, acariciar, corresponder, entre outros. Eu posso desejar duas pessoas, mas se eu incorrer na realização do desejo com ambas eu as estaria desrespeitando. Para que eu ame uma delas, a concretização do desejo nutrido pela outra deve ocorrer apenas na minha imaginação.

A chave da questão envolve algo que não é diretamente relacionado com o amor, mas com aquilo que acaba por transformar os relacionamentos em instituições: o medo.

Se na ação de amar está implicada uma entrega para o outro, uma desobrigação para consigo mesmo para atender às demandas que não são as próprias, isso só pode nos despertar muito medo. Qual será a contrapartida dessa entrega? O que o outro vai fazer com isso que oferecemos a ele? Esse medo nos leva a construir regras que acabam por delimitar o relacionamento: em relacionamentos de menor entrega a fidelidade é mais dispensável do que naqueles em que a entrega é maior.

Como, então, temos essa impressão de que Berilo de fato ama ambas?

A resposta tem relação com outra atitude envolvida no jogo amoroso. A sedução. Amar não é exclusivamente desejar; além disso, é seduzir a pessoa amada, levá-la a ter desejo por nós. E aí está a chave da questão, podemos seduzir quem não amamos. Porque desejar e seduzir sem respeitar pode não ser amor. Não só Agostina e Jéssica são seduzidas por Berilo, como as demais pessoas, que admiram-no, têm pena dele ao olhá-lo sofrendo da impossibilidade de concretização dos próprios desejos.

* Imagem disponível em http://contigo.abril.com.br/blog/jorge-brasil/files/2010/10/berilo-passione.jpg

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