No natal, uma visita dos Beatles

29/12/2010 § Deixe um comentário

As festas de final de ano despertam nas pessoas sentimentos confusos, corrida às compras, reavaliação do ano que está por terminar. Nesse momento, repetidamente, somos visitados pelos Beatles, através da música “Merry Christmas (War is over)”, que John Lennon escreveu após o final da guerra do Vietnam, que nos pergunta: “And so this is Christmas, and what have you done”?

Estudiosos dos Beatles dividem sua obra em diversas fases, e realmente os Beatles souberam se reinventar diversas vezes, ser sempre novos do início de sua carreira até o final. No princípio, os Beatles convidavam a juventude a uma rebeldia meio sem direção, expressa nos cabelos, na dança. Convidavam a uma busca de prazer cada vez maior, através da transgressão, do sexo, das drogas. Até que se deu um amadurecimento, e mais um colapso na Guerra Fria, no Vietnam. E aqueles que cantavam “Love me do/ you know I love you/ I always be true/ so please: love me do” compuseram um primeiro hino: Let it be. Há uma outra música de que eu gosto muito da mesma fase, Live and let die, que foi tema de um filme do agente 007. Let it be nos convida a um estado de contemplação: “Quando eu me acho em tempos de problemas, Ave Maria me aparece dizendo palavras de ternura: Deixe acontecer”. Let it be refletia uma juventude que havia sido esmagada por uma repressão, e que não via outra alternativa exceto deixar acontecer as atrocidades, ou sonhar com um herói que pudesse mudar o destino da humanidade com o auxílio de uma tecnologia de ponta, e de quebra comer uma gostosa, como James Bond.

Até aquele momento, os Beatles refletiam o estado de alienação que era necessário para se manter a sociedade que organizava. Era necessário se alienar nas drogas, era necessário se alienar na esperança que o desenvolvimento tecnológico prometia para o futuro, para tolerar a dor de ver o mundo dos anos 70, que estava sitiado, que estava em guerra, que estava amedrontado da ameaça do socialismo. “Não há nada que você possa fazer que não possa ser feito, não há nada que você possa dizer que não possa ser dito(…) Tudo que você precisa é amor”.

John Lennon rompe com os Beatles e a obra que inicia a partir dali propõe o contrário. É possível que um sonho faça a diferença. É possível pedir que se dê uma chance a paz. É possível pedir poder para o povo. É possível imaginar uma irmandade de homens. A força da obra solo de John Lennon fez parte da trilha sonora das mudanças que passaram a acontecer a partir da década de 80, como a abertura soviética, a queda do muro de Berlim, entre outras.

Àquele homem que cantava “deixe acontecer” o que aconteceu? O que levou ele a se encorajar a pedir uma chance à paz? Uns podem dizer que foi o amadurecimento; outros, que talvez ele nem tivesse se dado conta da repercussão de suas palavras; para uns terceiros, teria até mesmo sido a Yoko. Nunca iremos saber. No natal, o nascimento de Jesus representa a colheita daquilo que semeamos com o nosso amor, a recompensa pela fé que foi necessária desde a semeadura até a colheita. Que possamos, como John, semear – e ser delicados o suficiente para que se ouça – a possibilidade de um mundo melhor.

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