A dependência química e o tráfico de drogas

04/12/2010 § Deixe um comentário

A conquista do morro do Alemão

A ação militar que devolveu ao poder público o controle sobre o Morro do Alemão pode nos ter deixado esperançosos do combate à crescente criminalidade vinculada ao tráfico de drogas. O que a ação não contempla é que o que sustenta essa criminalidade nada mais é do que a exploração financeira de pessoas que são doentes, que são adoecidas cada vez mais em troca de dinheiro para ser cada vez mais adoecidas.

Uma das características da dependência química é a seguinte: ela só se manifesta na presença da droga. Se uma pessoa que tem a propensão a ficar dependente químico nunca tiver contato com a substância, ela não desenvolverá a dependência química. E isso envolve uma ação política, a de não permitir a disponibilidade da droga. Nisso, as ações militares, as grandes apreenções, a desarticulação das quadrilhas têm um mérito indiscutível.

O que vai além deste primeiro aspecto é o fato de que a dependência química como produto social exige para sua manutenção uma quantidade de alienação significativa, porque na sua gênese se encontra enraizada a mentira do dependente e a desatenção dos que o rodeiam. Não é raro que os pais dos adolescentes que adoecem só tomem consciência da gravidade da situação quando as crianças estão roubando as coisas de casa ou até mesmo já envolvidas com o tráfico de drogas.

Dificilmente um adolescente chega diretamente à maconha ou ao crack. O início se dá através de drogas legais, como o cigarro e o álcool, que seguidamente inclusive “são esquecidas” nos relatos de admissão hospitalar pelos pacientes e suas famílias. É frequente que os dependentes químicos tenham familiares que também são dependentes e que até tentam orientar seus filhos através do “faça o que eu digo não o que eu faço”. E os pacientes aprendem tanto o modelo da adição como o da mentira que o perpetua: “eu só uso no final de semana, quando eu quiser eu paro”.

A violência que se relaciona com essa forma de adoecimento tem como objetivo instituir o silêncio. O dependente químico faz uma algazarra em casa quando percebe a reprovação de seu estado estampada na cara de todos. O problema não é ele, são os outros: é a mulher que o incomoda, são os filhos. E tem como objetivo o silenciamento dessa reprovação. Em grandes proporções, essa demonstração de poder no Rio de Janeiro não deixa de ter esse objetivo: não o combate propriamente dito deste ciclo produtivo que é a relação entre dependência química e tráfico de drogas, mas o seu silenciamento.

“Marginal sem dinheiro, marginal sem casa é menos marginal”. Essa é a expectativa que a sociedade tem da intervenção, expressa por um dos líderes da ação militar. Não deixa a ação de ser, portanto, ao mesmo tempo uma promoção de marginalidade e o seu combate. O dependente químico paga o preço que for pela droga e vai continuar pagando. Talvez a margem da sociedade não venha mais a ser o morro do Alemão, mas onde quer que a margem da sociedade se institua, o dependente químico irá até lá e dará qualquer coisa em troca de droga.

O que foi combatido no Rio de Janeiro foi o exibicionismo, não de fato o tráfico de drogas e a dependência química, que exigem medidas mais amplas, como conscientização, tratamento, participação popular e atitude política. Nesse caminho, o governo mostrou apenas que tem mais poder que o tráfico, pra aqueles que tinham alguma dúvida disso.

* Artigo publicado em Zero Hora em 9/12/2010

* Artigo publicado em A Notícia, disponível em http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a3136202.xml&template=3898.dwt&edition=16052&section=1012

* Comentário ao artigo disponível em http://blogdainseguranca.blogspot.com/2010/12/dependencia-quimica-e-o-trafico_09.html

* Imagem disponível em: http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRuZkxDp3p_KjpnJsFoLaU-koe9G81oMWZAAxTOWWEhJEXJ7Hkng0TRZdPM

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