A paz esteja com você

19/12/2013 § 1 comentário

Parece que ainda não conseguimos compreender o que seria realmente a paz. Muitas vezes confundimos paz com ordem, e acreditamos que possamos produzir paz por coação. Outras vezes procuramos a paz como o efeito de alguma substância sobre o cérebro. Ampla campanha pareia paz a cannabis, substância que de fato induz um estado de passividade crônico, condição conhecida como Síndrome Amotivacional.

Duas aves na beira do mar. Playa Jose Inacio, Uruguay, 2013. Foto do autor.

Duas aves na beira do mar. Playa Jose Ignacio, Uruguay, 2013. Foto de Deborah Gomes.

Paz se relaciona com perdão. Vem cá, dá a mão pro amiguinho, pronto, agora vocês estão de bem, vão brincar. Quando crianças é tão mais fácil começar a brincar de novo. Crescemos, enchemo-nos de orgulho e teimosia, e temos de sustentar por quanto tempo mais os nossos beiços. É que, doutor, lá dentro (o sentimento) não mudou, então como é que eu vou poder perdoar? Eu vou estar mentindo. Se o sentimento já tivesse mudado, não precisaria perdoar. Perdoar envolve desenvolvermos a capacidade de nos desapegar dos nossos sentimentos aversivos e nos tornarmos capazes de experimentar novos sentimentos. Muitas vezes é difícil, mas podemos aprender.

A paz se relaciona com os nossos sentimentos, mas paz não é um sentimento. Paz é diferente da sensação de relaxamento a que uma substância pode nos induzir. Paz é mais do que conseguirmos ser mais tolerantes às nossas frustrações, o que também pode ser induzido farmacologicamente. E paz também envolve nos relacionarmos com sentimentos aversivos, como na situação do perdão.

Nesses confusos mapas das nossas relações, passividade e paciência podem ser apenas duas maneiras diferentes de ver a mesma coisa. Calar-se ao ser insultado pode ser considerada uma atitude passiva em relação a empenhar-se em uma discussão.

Paz implica aceitar que o nosso tempo está submetido ao tempo das coisas. Ciência, que não sabemos tudo, e que existe tanto a se conhecer. Paciência envolve articular paz e ciência na construção de uma perspectiva, mesmo incompleta, daquilo que está acontecendo, e avaliar e escolher a melhor maneira de agir em resposta à realidade, sabendo que podemos errar nessa escolha muitas vezes. Envolve podermos estar sendo submetidos a situações adversas, mas não encarnarmos a adversidade, através do perdão.

Paciência, paz e ciência, algo tão grande, que pode estar no limite da nossa capacidade de compreensão. E tão pequeno, que precisamos conhecer bem os nossos limites para que possamos desenvolver.

– Eu quero fazer a encomenda da MINHA MEDICAÇÃO

27/10/2013 § Deixe um comentário

– Qual o endereço da entrega, senhor?

O paciente esquizofrênico ao telefone numa sessão de ensaio comportamental diz o endereço da entrega para a atendente da farmácia.

– E qual seria a medicação, senhor?

O paciente responde.

– Um instante, por favor. Nós não temos a medicação disponível para a entrega, senhor.

– Vocês não têm a minha medicação em nenhuma das filiais?

– Um instante, senhor. Nós temos a medicação em uma das filiais, só não temos a medicação disponível para entrega.

– E por que o rapaz da moto não pode passar na filial, pegar a medicação e trazer até aqui?

– Eu posso estar lhe transferindo para a linha do cliente, onde podem estar respondendo todas as suas dúvidas, senhor.

– Não, obrigado. Você pode ao menos me dizer qual a filial que tem a medicação de que eu preciso?

– A filial da Cristóvão Colombo, XXX.

– Cristóvão Colombo? Ah, é uma que fica na esquina da Benjamin?

– Eu não posso estar lhe fornecendo informações sobre ruas, senhor. A filial que tem a medicação é a da Cristóvão Colombo, XXX.

– Eu preciso de quatro unidades. A senhora pode me informar se esta filial vai ter todas as unidades de que eu preciso?

– Nessa filial estão disponíveis dezoito unidades.

– Deixa ver se eu entendi bem: vocês têm dezoito unidades da medicação na filial, mas o motoqueiro não pode pegar quatro para me entregar aqui, eu é que tenho que ir até lá, e você não pode também confirmar se a filial que tem a medicação é a filial que eu penso que é. É isso?

– Senhor, a filial da Cristóvão Colombo, XXX, tem dezoito unidades e não temos a medicação disponível para a entrega. Se o senhor tiver interesse, pode estar solicitando a sua medicação por encomenda.

 

Ainda se faz eletrochoque? Essa brutalidade?

07/09/2013 § 2 Comentários

Paloma (Paolla Oliveira) é submetida a eletrochoque em Amor à Vida

Paloma (Paolla Oliveira) é submetida a eletrochoque em Amor à Vida

Nos últimos dias, a personagem Paloma (Paolla Oliveira) de Amor à Vida foi internada desnecessariamente em uma clínica psiquiátrica e submetida à força a ¨eletrochoque¨. As cenas, assustadoras, claramente desconcertam-nos. E nos levam a questionar a validade dos tratamentos psiquiátricos. Ainda se faz esse tipo de brutalidade?

Antes de mais nada, é importante dizer: Não! A psiquiatria já aprendeu tratar-se de uma brutalidade agir dessa forma, e os pacientes não são mais tratados assim.

Alguns aspectos que vão além desse do eletrochoque, entretanto, precisam ser tomados com muito cuidado. A personagem da novela é realmente vítima de uma conspiração. E a psiquiatra interpreta tudo como delírio persecutório. Ou seja, no entendimento da psiquiatra, o que a paciente está dizendo são pensamentos irrealistas produtos do adoecimento mental.

Uma parcela significativa dos pacientes graves em psiquiatria avalia a sua situação de maneira equivocada, delirante, e em função disso acaba por expor-se a riscos (como viajar com drogas ou entrar em confronto físico com um detento?). Ajuda nessa avaliação o psiquiatra coletar a história da família, mas às vezes a família também não sabe ao certo o que está acontecendo ou não há família. É nessas condições que o médico precisa tomar a decisão de se conduzir contrariando a vontade do paciente ou não, para protegê-lo. Em não protegendo-o, pode estar se omitindo em relação ao risco do paciente, e ser responsabilizado por isso; em protegendo-o, pode estar se conduzindo de maneira abusiva.

Nas últimas décadas, após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aconteceram avanços legais que possibilitaram que essa forma de se conduzir do psiquiatra em casos graves, pelo menos, não se desse de forma totalitária, desconsiderando por completo a vontade do paciente. Nesse sentido, construiram-se leis que protegem o paciente de uma decisão equivocada do psiquiatra, e existe uma nova instância que participa desse processo de decisão para proteger o paciente de uma atitude abusiva, e até mesmo das situações de risco, o Ministério Público. Conforme as leis atuais, para manter um paciente internado contra a sua vontade por mais de 72 horas é necessário informar o Ministério Público da situação e justificar. Da mesma forma, quando nos deparamos com uma situação de risco devido a doença mental, podemos acionar o Ministério Público, que irá avaliar a situação e implementar medidas cabíveis (assim se espera).

O Ministério Público não é infalível, até porque reflete o entendimento da sociedade sobre a questão, decantada em leis. No caso da dependência química, por exemplo, o Ministério Público está sendo acionado na maioria das vezes no sentido contrário. Ordens judiciais submetem pacientes à avaliação psiquiátrica contra a vontade para interná-los, e o psiquiatra conforme sua avaliação toma as condutas que julgar adequadas. Claro, informando o Ministério Público da sua decisão.

Nem sempre foi assim. E é importante que pacientes, familiares, psiquiatras e a sociedade conheçam a história da psiquiatria, até para que não surjam novidades inéditas salvadoras como a parceria entre o poder público e a igreja para salvar o paciente da loucura (ou da dependência química).

Paciente psiquiátrico submetido à extração de todos os dentes como tratamento para não morder mais, procedimento do século XVIII.

Paciente psiquiátrico submetido à extração de todos os dentes como tratamento para não morder mais, procedimento do século XVIII.

Em http://www.youtube.com/watch?v=3rnNC2hDqvY, temos um documentário dos mais radicais sobre a história da psiquiatria.  No final da idade média, as feiras eram locais perigosos, circulava muito dinheiro, e a solução foi protegê-las com muralhas. Circunscrever o poder. E lá dentro ficava (presa?) a elite e a igreja. Tomam força as ordens religiosas, pessoas que enclausuravam-se para aprisionar-se na fé. Os que não se submetiam às leis eram presos em fortalezas. Entre esses estabelecimentos, surgem os leprosários, os manicômios, e até (pasme-se) as escolas.

É contra o aprisionamento dos doentes mentais que surge a psiquiatria. O marco fundamental da psiquiatria foi Philippe Pinel  romper as correntes dos doentes mentais do Hospital-Sanatório de Paris. Naquele momento, os pacientes além de trancafiados eram exibidos publicamente em troca de dinheiro. Estamos falando na sociedade que deu à luz a Revolução Francesa. Ou seja, da eclosão de novos valores, entre eles a liberdade em oposição à caridade, o conhecimento em oposição à fé, a educação em oposição à salvação.

Philippe Pinel visita os alienados na Sapetrière, Hospital-Sanatório de Paris

Philippe Pinel visita os alienados na Sapetrière, Hospital-Sanatório de Paris

A partir do desenvolvimento de um tratado médico-filosófico fundamentado no acompanhamento dos alienados, passa a ser articulado o proposto Tratamento Moral. Entre as questões que emergem neste momento encontra-se a questão da doença mental como inimputabilidade penal (o alienado não precisa ser castigado, mas tratado). Como tudo na história, algumas questões tiveram novos nomes e sentidos revistos, mas na prática mudaram pouco, como a disciplina em lugar da penitência.

Enfim, chegamos à era da eletricidade. Às vezes, não nos damos conta, mas aquelas sociedades até então viviam à luz das velas. Como nos desconcertamos quando falta luz por alguns minutos. Eles viviam sem luz. Pensavam muito conforme o que se falava e pouco conforme o que se lia. Só alguns poucos sabiam ler. E esses poucos muitas vezes tinham isso como um conhecimento desconectado da sua vida. Como é para nós hoje o estudo dos elétrons em nuvens. No final do século XIX, com o desenvolvimento da eletricidade logo se teve a idéia de utilizá-la como pesquisa e para fins terapêuticos (e políticos e militares). Antes, o que se sabia do corpo sabia-se apenas por anatomia patológica (dissecar cadáveres). Se fizeram descobertas fascinantes com a eletroencefalografia (avaliar o funcionamento elétrico do cérebro), microscopia óptica (antes eles não tinham nem microscópio).

Foi no início do século XX que a eletroconvulsoterapia ganhou popularidade. Naquele momento não existiam medicações psiquiátricas; os médicos realizavam sangrias. E por algumas décadas se realizou o procedimento como aconteceu na novela. Nessa mesma época, judeus foram submetidos a neurocirurgias experimentais sem anestesia pelos nazistas, e assim se descobriu que o cérebro (acreditem) não dói. Inclusive, Walter Jackson Freeman, ao longo dessas décadas, um médico americano que utilizava uma técnica de destruir a parte da frente do cérebro com algo desenvolvido a partir de um picador de gelo e agulhas, a chamada lobotomia transorbitária, percorria o país com seu lobotomóvel, fazendo uma campanha para que esse procedimento fosse mais realizado, inclusive em crianças. E nesse mesmo tempo, Freud empenhou-se em desenvolver uma psicologia científica, construindo-se em torno da hipótese de que crianças apaixonam-se sexualmente pelos seus pais e querem matá-los e sofrem com isto.

Excessos à parte, a descoberta da eletroconvulsoterapia (ECT) é uma revolução na psiquiatria, pois possibilitou que milhares de pacientes tivessem alta dos hospitais. Se pensarmos historicamente, na idade média os pacientes passavam a vida inteira aprisionados; na época de Pinel, em que aceitou-se a possibilidade de que os alienados melhorassem, os pacientes ficavam grande parte da vida internados, mas tinham a possibilidade de estar entre os ¨normais¨ entre uma internação e outra. A ECT, aliada ao desenvolvimento dos psicofármacos, possibilitou uma virada para que essas internações pudessem durar entre algumas semanas e um ou dois meses, e então a pessoa poderia tentar ficar novamente com a família. Os manicômios transformaram-se em grandes asilos, moradias de pacientes que não estavam agudamente doentes.

O nosso organismo funciona eletricamente. Não é estranha a idéia de que normalmente nos neurônios existe eletricidade. Quando temos um ataque cardíaco por fibrilação, por exemplo, o coração está funcionando eletricamente, só que o modo como está funcionando não consegue fazer com que impulsione o movimento do sangue. Quando se usa o desfibrilador, nada mais se faz do que dar um choque para que o coração volte a funcionar da maneira certa para movimentar o sangue. Com a eletroconvulsoterapia é mais ou menos assim. Quando estamos deprimidos, o nosso cérebro está todo funcionando, mas o funcionamento não é eficaz para que as nossas emoções estejam à nossa disposição para reagir adequadamente ao que está acontecendo. A ECT provoca uma convulsão, que possibilita que o cérebro possa voltar a funcionar eletricamente como devia.

A ECT, quando indicada adequadamente, é inclusive mais segura do que os tratamentos farmacológicos. Gestantes, por exemplo, algumas vezes não podem fazer uso de medicações pelo risco ao feto. Como é um tratamento local, a ECT representa um risco menor. Pacientes idosos, que fazem uso de inúmeras medicações, podem ter limitadas possibilidades de uso de psicofármacos em função das interações medicamentosas. Esses pacientes também se beneficiam da ECT.

Claro, diferentemente da desfibrilação, na ECT hoje em dia pode-se fazer uma avaliação adequada antes da sua realização, para indicá-la apenas nos casos em que o benefício de sua realização supere os riscos e o desconforto, inclusive em comparação com as alternativas que se têm. Em relação ao desconforto, hoje em dia, as ECTs são realizadas sob anestesia. O paciente não se debate, a convulsão é acompanhada unicamente no eletroencefalograma; é iniciada com o estímulo elétrico, que o paciente não sente porque está dormindo, dura alguns segundos, e é interrompida com medicamentos. Os pacientes normalmente saem satisfeitos da escolha pelo tratamento, em função de a melhora poder ser percebida mais rapidamente do que com o uso das medicações, que demoram semanas para fazer efeito.

Poderia-se dizer, inclusive, que hoje os pacientes sofrem mais por ser privados do acesso a este recurso terapêutico, por preconceito. Por as pessoas, como na novela, divulgarem eletroconvulsoterapia como o mesmo que eletrochoque, uma forma de tortura. Em http://www.youtube.com/watch?v=OKuuJH66r84 temos uma reprotagem sobre a atualidade da eletroconvulsoterapia.

* Imagens disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=lYQ1zxFM274http://www.youtube.com/watch?v=3rnNC2hDqvY e pablo.deassis.net.br

A terapia e a prática

03/09/2013 § Deixe um comentário

medusaA sociedade busca cada vez mais soluções rápidas para os problemas, e nesse processo a psicoterapia é vista na melhor das hipóteses como trabalhosa. Muitas vezes, as pessoas buscam o terapeuta com idéias irrealistas a respeito das possibilidades da psicoterapia como tratamento (pensam que o terapeuta vai resolver os problemas no seu lugar e é por isso que estão pagando); outras vezes, as pessoas acham que elas mesmas é que têm de resolver os próprios problemas, e vêem na terapia um gasto desnecessário.

Há uma tendência de que as pessoas entendam teorizar como o oposto de praticar. Nesse sentido, a terapia seria um processo teórico, desconctado da prática, que seria o espaço exclusivo do paciente. Quando nos referimos as terapias psicanalíticas isso pode até ser verdadeiro em parte. Ocorre que estão em desenvolvimento psicoterapias práticas, como as comportamentais, que buscam explicações simples para as dificuldades dos pacientes e propõem atitudes práticas para que modifiquem suas realidades e confiram a mudança que estão buscando.

Nessa forma de tratamento, o terapeuta mostra como enfrentar, enfrenta junto, desafia o paciente a enfrentar sozinho. Isso vem de encontro à solução dos problemas práticos dos pacientes. Ocorre que nem todos os problemas são práticos. Muitas vezes, o problema a ser resolvido não está  claro no primeiro momento, e é preciso que se descubra qual é o problema ao longo do processo de terapia. Até que – pronto! – descoberto significa resolvido. Algumas vezes isso pode ser uma realidade, o paciente implementa ações práticas que visam resolver definitivamente o seu sofrimento.

Na maioria das vezes, entretanto, essa descontinuidade entre teoria e prática transforma-se num refúgio, em que a compreensão do terapeuta contém a dor do paciente, refugiado na teoria.

Diferentemente de teorizar e praticar, entre fazer e não-fazer existe sim uma oposição verdadeira, de maneira que não se pode (ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto) fazer e não fazer. Ou a pessoa faz, ou a pessoa não faz. E nisso resulta uma ilusão: as pessoas seguem pensando e não-fazendo iludidas de que no pensar por si mesmo exista uma ação real, e não existe. Na escolha do pensar, existe junto uma escolha do não-fazer. Outras vezes as pessoas não fazem por temer as consequências que teriam caso fizessem, esquecendo-se que no não fazer também temos consequências.

É necessário que atitudes práticas e resultados reais construam uma ligação forte entre o pensamento e a realidade. Pensamento desconectado da realidade nada mais é que delírio; realidade desconectada do pensamento, alienação.

É preocupante que blogs divulguem material científico?

06/08/2013 § Deixe um comentário

Na última edição da Revista da AMRIGS, Dr. Alexandre Antonio Marques Coelho levanta esse questionamento à conclusão do trabalho de Fabio Berti ¨Comunicação científica em blogs: convergências e divergências nas opiniões do pesquisador e da sociedade” de que seja preocupante a divulgação de conteúdo científico em blogs, publicada em edição anterior. São discutidos aspectos referentes à metodologia da pesquisa como fundamentadora das conclusões e oferecidos entendimentos alternativos aos resultados observados. Confira o texto completo no link a seguir.

É preocupante que blogs divulguem material científico? Rev AMRIGS 2013, 57(2):161

O artigo de Fabio Berti, a que é levantado o questionamento, a seguir.

Berti F, Souza DOG. Comunicação científica em blogs: convergências e divergências nas opiniões do pesquisador e da sociedade. Rev AMRIGS 2012, 56(2): 133-40

 

O que leva uma pessoa a ter compulsão alimentar?

21/05/2013 § Deixe um comentário

Palavra de origem grega que significa ¨fome de boi¨, a bulimia é uma doença cuja característica principal consiste na compulsão alimentar. Muitas vezes, as pessoas pensam que bulimia é apenas quando a pessoa vomita, isso é mais ou menos como dizer que a pessoa só é alcoólatra quando bebe todos os dias. Tem muitas pessoas que têm compulsão alimentar e não utilizam qualquer medida compensatória, e engordam; outras fazem uso de medidas compensatórias, jejuns, vômitos, laxantes, exercícios físicos extenuantes (isso mesmo, também é considerado uma medida compensatória) e mesmo com tudo isso se sentem fracassadas no controle do peso. O que causa essa condição?

A fome é um dos sentimentos mais fundamentais do ser humano, vamos dizer, enquanto bicho. Animais que acumulam reservas energéticas sobrevivem mais quando comparados aos que não acumulam quando expostos a uma seca prolongada ou a um inverno rigoroso. O acúmulo de gordura, entretanto, se deixa o animal mais pesado ou mais lento, se transforma em desvantagem na primavera. Sentir fome quando privado de alimento é adaptativo, nesse sentido grifemos quando privados de alimentos. A compulsão alimentar é uma resposta independente da privação. Ocorre que muitas vezes a pessoa que sente compulsão soma isso com atitudes que causam fome, como alimentação desorganizada, jejuns prolongados, abuso de guloseimas ricas em carboidratos simples, entre outras que criam um ciclo onde se torna quase impossível diferenciar a compulsão da fome. Outro aspecto importante no controle do comportamento da compulsão alimentar é que precisamos ter muitos episódios de compulsão alimentar por muito tempo para que possamos ser punidos pelo engordar, enquanto que sempre que comemos somos gratificados na hora com prazer; o mesmo ocorre com o emagrecer: precisamos tolerar a frustração de modificar a nossa ingesta alimentar por muito tempo para que possamos ser reforçados por uma modificação na balança ou por um emagrecimento perceptível, enquanto o comer nos gratifica na hora; as medidas compensatórias (vomitar, usar purgantes) são tentativas de tornar imediata a gratificação do emagrecimento.

A bulimia é uma resposta feminina. Algumas estimativas apontam que a frequência da condição chega a ser dez vezes maior em mulheres do que em homens. Claro, quando falamos em gênero estamos falando em aspectos muitos que vão além de hormônios, mas temos que pensar em hormônios também. Os hormônios masculinos mandam o corpo utilizar os nutrientes energéticos para criar músculos, e os femininos, gordura. Os hormônios masculinos e femininos são armazenados no tecido adiposo. Curioso é que os hormônios masculinos e femininos são muito parecidos e em grandes quantidades tornam-se menos seletivos pelos seus receptores. Então, se aumentamos a quantidade de tecido gorduroso, aumentamos a quantidade de hormônios, o que pode levar os hormônios masculinos a exercerem efeitos de hormônio feminino e vice-versa. Nas mulheres, ocorre que com o aumento de peso muitas vezes acontece a chamada de síndrome dos ovários policísticos, uma forma de masculinização.

Representação pré-histórica do feminino enquanto fertilidade, a Venus de Willendorf apresenta contornos voluptuosos.

Representação pré-histórica do feminino enquanto fertilidade, a Venus de Willendorf apresenta contornos voluptuosos.

Esse efeito conduz a discussão para a revolução social operada pelas mulheres ao longo do século passado, buscando direitos, e fazendo continuamente uso de hormônios como forma de não engravidar, e tornando-se mais agressivas sexualmente (uma atitude masculina?). Ao mesmo tempo, tem se observado (nos dois sentidos) um grupo de homens que cultiva obsessivamente os músculos, com atitudes que poderíamos comparar com as atitudes da preocupação com o engordar, das mulheres. A sociedade como um todo tem aumentado de peso de maneira indistinta, isso poderia apontar no sentido de uma sexualidade indistinta? Tá, vamos parar por aqui, daqui a pouco vamos envolver homossexualidade nessa discussão, e pode vir a ser crime. De qualquer maneira, atravessa a discussão a questão da forma do corpo como qualificadora da pessoa enquanto objeto de interesse sexual, onde o mais forte e a mais magra seriam mais atraentes de desejo sexual do que o mais fraco ou a mais gorda, o que nos coloca em contato com a nova dialética do feminino: ao mesmo tempo de a mulher não querer ser considerada apenas um objeto sexual e a busca por poder ser esse objeto.

Representação celta do feminino, Sheela-na-Gig abre o ventre para inspirar o temor do contato com o interno do corpo.

Representação celta do feminino, Sheela-na-Gig, que é magra, abre o ventre para inspirar o temor do contato com o interno do corpo.

Essas questões que podem ser observadas dentro da sociedade como um todo também são presentes dentro das famílias, que são o principal alvo de intervenção dentro dos transtornos alimentares. A boca é um espaço de comunicação entre o externo e o interno do corpo. Pode colocar em palavras o que está dentro (os sentimentos). Pode devorar agressivamente o que está fora, transformar o externo em sentimentos, bem como vomitar tudo de que não consegue dar conta. E temos medo de falar sobre a sexualidade incestuosa intrafamiliar. O desejo sexual entre pai e filha, a concorrência entre a filha e a mãe, a emergência do corpo novo da filha dentro da família, o prolongamento interminável da adolescência como uma fuga ao desprendimento do meio familiar, a gestação na adolescência, entre outras tantas vinculações que podem ser compreendidas através de perspectivas que envolvam a sexualidade.

A família atual enfrenta uma grande renegociação de papéis, entre a família do passado, entenda-se a família do passado tanto a família vitoriana assexuada como a família antes da emergência da sexualidade dos filhos, e a família do presente que começa a poder falar e explorar livremente a sexualidade (ainda que dentro de uma perspectiva externa à família; dentro, é incesto, abuso, pedofilia, crime, pecado). Nesse sentido, a ¨greve de fome¨ da anorexia pode tanto ter uma perspectiva de protesto como ser uma estratégia bem-sucedida no pior sentido de matar esse corpo novo que emerge, e a bulimia, a aceitação da culpa familiar pelo insucesso no controle dos próprios sentimentos e do próprio corpo, bem como pelas repercussões do que essa emergência processa na sexualidade intrafamiliar.

Essa renegociação de papéis também é presente dentro do enquadramento psicoterápico. A medicina vitoriana do final do século XIX, que não podia lidar com a emergência de questões de sexualidade entre pacientes e terapeutas, deu à luz o conceito da transferência. Segundo esse entendimento, o paciente transferia para o médico (profissional não emocional, inocente a essa investida) suas fantasias sexuais que haviam sido direcionadas para seus genitores durante o conflito edípico (o menino querer matar o pai para ficar com a mãe). Hoje, entende-se que para que exista tratamento precisa que pacientes e terapeutas estejam presentes emocionalmente. Mesmo com a presença de fantasias sexuais, pacientes e terapeutas precisam estar conscientes da impossibilidade da concretização dessas fantasias como condicionante do enquadramento psicoterápico, só assim o tratamento é possível.

Questão desafiadora dentro da perspectiva social, familiar e individual, trata-se de uma doença e de um sintoma presente em outras doenças mentais que causa muito sofrimento. No tratamento da bulimia, algumas medicações, a principal delas a fluoxetina, podem ser muito úteis. As intervenções psicoterápicas também são importantes, individuais, familiares e de grupo, dentro das perspectivas comportamental-cognitiva, sistêmica, esquizoanalítica, psicanalítica. Os sintomas (pensamentos, sentimentos, comportamentos) podem melhorar bastante com estratégias comportamentais e cognitivas. A família poder colocar em palavras e recriar as interações pode fazer com que o sintoma não se faça mais tão necessário. A pessoa também pode reviver e elaborar na transferência os sentimentos e fantasias inconscientes representadas no sintoma por meio de uma exploração psicodinâmica. Nos transtornos alimentares, já se demonstrou que atividades de grupo são mais eficazes do que individuais dentro da perspectiva comportamental-cognitiva, provavelmente porque os participantes competem entre si no controle do sintoma, o que não significa que não exista espaço para intervenções individuais. As intervenções não precisam ser implementadas todas ao mesmo tempo: é difícil ao paciente submeter-se a um tratamento psicoterápico, quanto mais submeter-se a diversos tratamentos psicoterápicos concorrentes. De qualquer maneira, o enfrentamento da bulimia é um desafio para pacientes e terapeutas, e o sucesso no tratamento da condição tem se tornado cada vez mais possível.

Homossexualidade e lei seca: culpas e desculpas

09/03/2013 § Deixe um comentário

Pastor Silas Malafaia entrevistado por Marília Gabriela comenta seu posicionamento polêmico a respeito da homossexualidade

Pastor Silas Malafaia entrevistado por Marília Gabriela comenta seu posicionamento polêmico a respeito da homossexualidade

Recentemente, o pastor Silas Malafaia foi entrevistado por Marília Gabriela, e entre os temas polêmicos que foram discutidos encontrava-se o seu posicionamento em relação ao PLC 122, que trata dos direitos dos homossexuais. O pastor defendeu que os homossexuais devem ter direitos iguais aos de qualquer cidadão. Na visão do pastor, a homossexualidade não é um comportamento geneticamente ou biologicamente determinado, mas um comportamento adquirido por aprendizagem ou imposição (em especial por situações de abuso) e possível de cura.

A homossexualidade já foi considerada pecado, já foi considerada doença; já foi considerada também uma opção; hoje, a sociedade aceita que homossexualidade seja normal: é algo que as pessoas não podem escolher e que todos têm de aceitar. O homossexualismo, que já foi catalogado junto com as perversões – como o fetichismo, o sadomasoquismo, o voyeurismo, a pedofilia – foi retirado dos manuais diagnósticos médicos. Não é uma doença, portanto mesmo que possa causar muito sofrimento (e em geral causa) não pode ser tratado; os outros é que têm de mudar suas cabeças, rever seus preconceitos.

Nessa condição, ser doente é aversivo. Considerar doente o homossexual seria como justificar a vergonha que sente pelo seu comportamento, que muitas vezes é o que o faz sofrer.

Por outro lado, entra em vigor no último dia 21 de dezembro a lei 12760/12, conhecida como “nova lei seca”, que torna válidas outras evidências de embriaguez além do bafômetro (a que os condutores podem se recusar a submeter), pretendendo identificar um número maior de condutores alcoolizados, e aumenta as punições por dirigir embriagado. Com a punição, a lei pretende diminuir a incidência de mortes no trânsito. Essa iniciativa vem na contramão da descriminalização do consumo das drogas, de que os dependentes químicos também são considerados atualmente vítimas.

Punir no contexto da dependência química é considerado não apenas ineficaz, como complicador do tratamento, uma vez que o paciente não teria controle sobre o próprio consumo, não compreenderia as consequências das suas ações. Sendo preso, o dependente poderia facilmente ser recrutado (escravizado em troca de droga) pelas organizações criminosas, que mais fazem concentrar-se nos estabelecimentos prisionais, além de que a criminalização do comércio acabaria obrigando os traficantes a usar violência, expondo os dependentes e os demais à criminalidade para fornecer as drogas de que os pacientes não se conseguem abster.

Em relação ao alcoolismo, a sociedade se autoriza a punir como forma de incutir culpa no comportamento de pessoas doentes, que, mesmo sabendo que beber e dirigir expõe a si mesmas e aos outros a riscos, não conseguem deixar de conciliar as duas condições. Na questão das demais dependências, a sociedade acaba utilizando a doença como uma forma de isentar da culpa, evitar a punição.

Na ética da bíblia, doença ou é pecado ou é castigo pelo pecado, de que os fiéis devem se arrepender e pedir a Deus força para resistir. A sociedade está construindo novas formas de relacionar doença e culpa, aprendendo novas maneiras de olhar para os fenômenos (como a biologia) e se permitindo novos posicionamentos em relação a eles. Como estamos nos experimentando nesses novos olhares, existem riscos: mesmo que precisemos retomar aspectos dessa ética que está ruindo, que possamos assumir a responsabilidade pelas nossas ações e até mesmo nos sentir culpados pelas que se mostrarem danosas, e que possamos aprender com isso.

* Imagem disponível em https://i2.ytimg.com/vi/Myb0yUHdi14/mqdefault.jpg

* Assista ao vídeo na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=Myb0yUHdi14